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Coluna do Udes Filho

Luto: o trem parou e Moizeis desceu

Por Jacqueline Heluy

Um telefonema no meio da manhã de domingo. Uma notícia triste. Um dia de reflexão. E hoje inicio esta segunda-feira nublada me arrumando para sepultar mais um colega de trabalho. O Moizeis Terêncio se foi.

Quando digo que Moizeis foi um bravo lutador não é força de expressão que se usa sempre que alguém tenta vencer a morte – e, diante dela, sucumbe. Ele lutou porque lutou mesmo para vencer todas as tormentas deste caudaloso e traiçoeiro rio chamado Vida.

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Comecei a conviver com sr. Moizeis no Complexo de Comunicacão da Assembleia Legislativa há cerca de cinco anos, quando ele trabalhava na recepção junto com os segurança. Moizeis queria executar serviços administrativos e pedia ajuda a quem pudesse levá-lo para trabalhar na Comunicação. De tanto lutar, ele conseguiu.

Mas, ele não se acomodou no serviço de auxiliar administrativo, apenas levando documentos de um setor ao outro. Há cerca de três anos, um dia ele me disse que gostaria de trabalhar na Rádio ALEMA. Queria ser operador de áudio. Ai eu falei: “então comece a pegar umas aulas para aprender”.

Moizeis meteu a cara para aprender a operar os programas de edição de áudio e todos os equipamentos. Aos 72 anos, ele tinha uma determinação e inteligência que eu vejo em poucos mais novos. Treinava nas horas de folga dos serviços administrativos e nos finais de semana.

Um dia me disseram que Moizeis passou a noite no sofá da recepcão. Aí me preocupei e chamei para conversar. Ele justificou: “é porque preciso aprender a colocar o programa que vai para a rádio Senado no ar às seis da manhã e se eu for em casa não vou chegar na hora”. Pedi a ele que não fizesse mais isso. Mas o aprendiz era insistente.

E foi assim que, aos 73 anos, ele conquistou uma vaga de operador e editor na Rádio Alema.

Durante esta madrugada pensei muito no que a morte de Moizeis me revela. Ele é o quarto colega da Comunicação que morre em menos de quatro anos: Racciele em 2015, Ruy e Eldio em 2017.Todos se foram sem se despedir. Um dia estavam ali com a gente, às vezes rindo, às vezes zangados, mas todos batalhando pela sobrevivência. No outro dia não estavam mais.

E assim será com todos nós. É como se estivéssemos viajando em um trem que vai parando nas estações e cada um vai saltando e virando a esquina para nunca mais voltar.

Apesar da tristeza, a morte de Moizeis e de outros colegas nos deixa uma lição: sejamos mais tolerantes, solidários e verdadeiros uns com os outros. Ninguém precisa prejudicar ninguém para tentar ocupar o espaço que outro ocupa. Afinal, neste trem que nos carrega há lugar para todos. E, assim como Moizeis, todos nós vamos descer em uma estação e virar a esquina. Só não sabemos o dia e a hora. E nunca mais nos veremos. Pelo menos não nesta vida.

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