Documento de Trump e Kim é simbólico e desnuclearização demora, dizem especialistas

O documento assinado nesta quarta-feira (12) em Singapura entre Donald Trump e Kim Jong-un, que prevê o compromisso para o fim do programa nuclear da Coreia do Norte, é considerado simbólico e não tangível por analistas políticos, que também alertam que o processo de desnuclearização leva tempo.

  • Kim Jong-un se compromete com o fim das armas nucleares em encontro com Trump em Singapura

A frase da declaração conjunta é bastante vaga a respeito de um calendário para o fim das armas nucleares na península coreana e cita negociações posteriores para a aplicação das medidas. O documento também não afirma que a desnuclearização será “verificável e irreversível” como exigiam os Estados Unidos antes do encontro de cúpula de Singapura, o que poderia ser interpretado como um recuo de Trump.

“É incerto se as negociações adicionais levarão ao objetivo final da desnuclearização”, disse à agência Reuters Anthony Ruggiero, membro sênior do grupo de pesquisa Foundation for Defense of Democracies, de Washington.

“Isso parece como uma reafirmação de onde nós deixamos as negociações há mais de 10 anos e não como um grande passo para frente”, afirmou.

“A Coreia do Norte não prometeu nada mais do que promete há 25 anos”, afirmou à AFP Vipin Narang, professor do Massachusetts Institute of Techonolgy. “A esta altura, não há nenhuma razão para pensar que a cúpula resulte em algo mais concreto em termos de desarmamento”.

A agência recorda que o regime de Pyongyang tem um histórico de promessas não cumpridas. Em 1994 e em 2005 foram anunciados acordos que nunca foram aplicados.

Processo demorado

O presidente dos EUA disse esperar que o processo de desnuclearização comece “muito, muito rapidamente”. O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, e autoridades norte-coreanas irão continuar as negociações “o mais cedo possível”, segundo o comunicado.

No entanto, um estudo sobre o tema conduzido por Siegfried Hecker, ex-diretor do centro de desenhos de armas nucleares em Los Alamos e um dos poucos estrangeiros a conhecer as instalações nucleares da Coreia do Norte, estima que o fim completo do programa de mísseis ou de armas nucleares levaria de 6 a 10 anos. Isso ocorreria em etapas, para “deter, reduzir e eliminar” seus programas armamentistas.

Em declaração feita antes da declaração desta quarta, Hecker disse acreditar que uma desnuclearização imediata da Coreia do Norte é “inimaginável” e “equivalente a uma suposta rendição norte-coreana”.

O cientista político Arnaldo Francisco Cardoso, professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, explicou à Rádio França Internacional que o processo para o desmonte nuclear é complexo:

“O rastreamento e a identificação das instalações envolve uma quantidade enorme de pessoas. E, para que isso aconteça, depende de uma forte cooperação do governo do país que se submete a um tal processo e isso ainda é uma incógnita, embora tenham ocorrido promessas enfáticas de cooperação”, disse.

O arsenal norte-coreano

A Coreia do Norte, um país pobre, dedicou importantes recursos a seus programas armamentistas e desenvolveu durante décadas um programa para obter as armas nucleares e os mísseis balísticos necessários para atacar o território americano, conseguindo rápidos avanços na gestão Kim.

Além de seu arsenal nuclear, acredita-se que o país possua entre 2.500 e 5.000 toneladas de armas químicas que produziu desde os anos 1980, segundo as Forças Armadas sul-coreanas.

 Persistem, contudo, dúvidas sobre a capacidade do regime norte-coreano no que se refere à identificação de alvos, à miniaturização de ogivas nucleares, ou o reingresso dos mísseis na atmosfera – três aspectos que a Coreia do Norte garante controlar.

As estimativas sobre a capacidade nuclear norte-coreana variam segundo as fontes. Seul calcula que as reservas de plutônio norte-coreanas chegam a mais de 50 quilos, o suficiente para produzir cerca de dez armas nucleares, e assegura que Pyongyang também tem “uma quantidade significativa” de urânio altamente enriquecido.

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